PROFECIA E EXPOSIÇÃO SERMONAR, EXISTE DIFERENÇA?

Por Jefferson J. R. Rodrigues

Ao se observar alguns grupos religiosos percebe-se de imediato a desqualificação dada por eles a qualquer manifestação sobrenatural do Espírito Santo em suas liturgias. Tais grupos defendem a idéia de que os dons espirituais espetaculares, como profecia e línguas, deixaram de ser necessário na presente era da Igreja. Diante disso, assumem o pressuposto de que a única profecia que existe na atualidade é a exposição bíblica através de um sermão.

Com base nesta premissa cabe o questionamento: Será que o dom de profecia apresentado por Paulo ao coríntios (I Co 12-14) tratava-se da exposição de um sermão? Buscando responder a este questionamento analisaremos o texto Paulino de I Co 14.

I. Análise lexical

O substantivo grego utilizado por Paulo para referir-se ao dom de profecia em 1 Co 14 é προφητεία (prophēteia). De acordo com Louw e Nida (2013, p. 393) o uso daquele substantivo indicava que entre os coríntios havia aqueles que tinham “a capacidade de enunciar mensagens inspiradas”. Deste modo, prophēteia é um termo que faz referência a capacidade de produzir mensagens inspirados pelo Espírito Santo (LOUW; NIDA, 2013, p. 393). Aquela era uma palavra usada por Paulo para indicar “uma pessoa que falava ao povo de Deus sob inspiração do Espírito Santo” (FEE, 2019, p. 752), não se tratando de um discurso previamente construído e entregue a comunidade (SCHEREINER, 2019, p. 91).

Esta definição pressupõe uma distinção entre profecia e a exposição de um sermão (GRUDEM, 2017, p. 66). Há autores que restringem este charisma ao ato de ensinar as Escrituras através de um sermão previamente estabelecido (CALVINO, 2003, p. 415; KISTEMAKER, 2003, p. 665). Contudo, ao observar as proposições paulinas, especialmente em I Co 14.29-31, compreende-se que Paulo trata de algo distinto de uma mensagem previamente preparada (SCHEREINER, 2019, p. 91).

2. Desencontros entre profecia e pregação

O distanciamento da profecia em relação a um sermão previamente preparado pode ser estabelecido a partir da verificação do seguinte roteiro apresentado por Paulo (I Co 14.29-31):

a) Durante o culto poderia ser dada a oportunidade para diversas pessoas profetizarem, uma por vez (I Co 14.29);

b) A profecia era originada a partir de uma revelação Divina, que poderia ser manifesta instantaneamente pelo Espírito (I Co 14.30);

c) A todos que o Espírito Santo concedesse uma revelação profética, deveria ser dada a oportunidade de falar a mensagem que receberam do Senhor, existindo apenas uma ressalva: deveria ser feito de modo organizado (I Co 14.31).

O fato de ser dada oportunidade para diversas pessoas exporem mensagens proféticas, mostra que este não era um oficio exclusivo de um pregador, mas era uma atividade funcional concedida a quem recebia este charisma (GRUDEM, 2017, p. 116). O segundo aspecto a ser ponderado é o fato de que a profecia chegaria ao profeta através de uma revelação espontânea vinda através do Espírito Santo (GRUDEM, 2017, p. 67; PALMA, 2009, p. 227). Esta atividade não se originava com base no estudo prévio do indivíduo (STORMS, 2003, p. 214), mas manifestava-se pelo agir sobrenatural do Espírito Santo (FEE, 2015, p. 210). E por fim, naquela comunidade potencialmente todos estavam aptos a expressarem uma mensagem recebida de Deus, atividade que seria impraticável caso tratasse da exposição de um sermão. Assim, a diferença entre profecia e a exposição de um sermão (pregação) pode ser definida por Bennett e Bennett:

A profecia não é uma pregação inspirada […] na pregação, o intelecto, o treinamento, a habilidade, o contexto do pregador e a educação estão envolvidos e inspirado pelo Espírito Santo. O sermão pode ser escrito antes do tempo ou entregue de improviso, mais vem do intelecto inspirado. Profecia, por outro lado, significa que a pessoa está trazendo as palavras que o Senhor dá diretamente (BENNETT; BENNETT, 1971, p. 108-109).

Se a profecia não era um sermão previamente elaborada, o que seria então? Paulo não descreveu o conteúdo da profecia que se manifestava entre os coríntios. Contudo, ele resumiu o discurso profético como um dom concedido pelo Espírito Santo (STORMS, 2016, p. 117-118), e como tal, tratava-se de uma capacitação extraordinária com a finalidade de trazer à congregação cristã uma mensagem que fosse capaz de edificar, consolar e exortar aos presentes (1 Co 14.3).

Conclui-se esta breve exposição afirmando que a profecia entre os coríntios era um charisma concedido pelo Espírito Santo, que se manifestava espontaneamente, tendo como finalidade trazer edificação para o Corpo de Cristo, a Igreja, sendo, portanto, uma atividades distinta da pregação previamente estruturada.

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Sobre o autor: Jefferson J. R, Rodrigues é pastor em Teresina-PI. Mestrando em Teologia, especialista em Interpretação bíblica, bacharel em Teologia, licenciado em História, escritor e professor de exegese do Novo Testamento.