O CANTO DO GALO: CANTOU OU RESSOOU?

Por Carlos Vailatti

ARGUMENTOS CONTRÁRIOS À INTERPRETAÇÃO LITERAL DO CANTO DO GALO

1º Argumento linguístico

Na expressão “cantará o galo” (CF Mt 26.34, Mc 14.30, Lc 22.34 e Jo 13.38). O verbo grego “phonéo” pode ser traduzido como “ressoar” (em vez de cantar) e, portanto, pode ser referir aos sons emitidos por qualquer instrumento musical, como por exemplo, o toque da trombeta romana (ou gallicinium, literalmente “canto do galo”).

2º Argumento cronológico

Em Marcos 13.35, a expressão “cantar do galo “ possui um sentido cronológico: “Vigiais, pois, porque não sabeis quando virá o Senhor da casa; se à tarde (1ª vigília: das 18h às 21h), se a meia-noite (2ª vigília: das 21h às 0h), se ao cantar do galo (3ª vigília: das 0h às 3h), se pela manhã (4ª vigília: das 3h às 6h)”.

3º Argumento cerimonial

Segundo os evangelhos de Marcos (Mc 14.66), Lucas (Lc 22.54) e João (Jo 18.15-17), Pedro, no momento em que negou a Jesus, estava na “casa do sumo sacerdote”, a qual ficava no centro de Jerusalém. Mas, de acordo com fontes judaicas, galos não poderiam ser criados em Jerusalém (Cf. Mishná, Nezikin, Baba Kama 7:7), pois contaminariam as coisas santas.

ARGUMENTOS FAVORÁVEIS À INTERPRETAÇÃO LITERAL DO “CANTO DO GALO”

1. Argumento linguístico

Na expressão “cantará o galo” (Cf. Mt 26.34, Mc 14.30, Lc 22.34 e Jo 13.38), o verbo grego phoneo é melhor traduzido como “cantar” (em vez de “ressoar”) e, por isso, ele se refere, nos textos acima, ao canto literal da ave chamada Galo.

2. Argumento do milagre (Este argumento também pode ser empregado para favorecer ponto de vista contrário)

Deus, que tem o poder sobre todos os elementos da natureza, também exerce o seu domínio sobre os animais, incluindo os galos. Portanto, o Senhor fez a ave chamada Galo cantar logo após a negação de Pedro.

E você? O que acha? O galo cantou ou a trombeta ressoou?

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Dr. Carlos Vailatti, doutor em estudos judaicos pela USP.