Quando os paliativos são apenas palhas

Quando analisamos a linha histórica da igreja até nossos dias constatamos as mudanças sociais, geopolíticas, religiosas, filosóficas dentre outras, que com suas mudanças levaram a igreja a demonstrar a sua essência como igreja e não apenas como uma instituição. Sendo reflexo de sua época, a igreja expirou o espírito do seu tempo e que por vezes foram positivos, e por outras vezes, negativos.

            Depois de dois milênios estamos aqui como igreja sob os mesmos dilemas, mas com facetas diferentes, pois, os tempos pós-modernos (?) desafiam a igreja com o espírito da época e com as consequências da história. Entretanto, a igreja hodierna vive a sua marcha sendo desafiada a se manter nos princípios estabelecidos por Cristo para a sua noiva (Ver 1 Co 3.11). A igreja organismo é perfeita e nada a atingirá, mas a igreja institucional não anda nos mesmos parâmetros do “organismo vivo”.

            Fazendo uma leitura do mundo contemporâneo logo veremos que depararemos com uns problemas que descaracterizam a natureza espiritual da igreja por meios de aderenças a certas coisas estranhas aos princípios bíblicos e à história do povo de Deus na velha aliança, como também são estranhas à história eclesiástica e definitivamente nunca fizeram parte do escopo da igreja, mas são apenas práticas que distorcem o real sentido de igreja.

            Um exemplo claro é o desafio da igreja na cultura popular do nosso país que época em época se comemora uma festa ou um santo pagão com singularidades que muito atrai os festejos. O carnaval, por exemplo, anualmente é um desafio para a igreja não só durante aqueles dias, mas durante todo o ano por causa das expectativas que se criam e daquilo que se propagam antes, durante e depois. A nossa cultura torna-se um desafio real e que nos impulsiona a ser de fato igreja!

            Mas a questão é se diante desse contexto estamos sendo igreja de fato e de verdade, e não apenas seguindo a procissão! Se por um lado a igreja sempre será igreja, por outro, tenho as minhas dúvidas quanto à igreja institucional. O que me faz questionar são coisas que, aos poucos, a igreja adere certas práticas como um estilo que torna-se normativo para toda a comunidade cristã em detrimentos de outros valores muito mais importantes. Exemplo, quando a igreja local se preocupa com certas esquisitices em detrimento do estudo sistemático das Escrituras, acende a luz amarela!

            Quando verdadeiros louvores que exaltam a Cristo e nos aproxima de Deus mediante a verdadeira adoração são prescindindo por “arrepios” alguma coisa está fora do lugar. Precisamos urgente refazer a rota para não permanecermos andando em círculos, achando que estamos em marcha, quando na verdade, estamos iguais o mar morto, sem vida! Falando de música evangélica essa tem sido uma temática que merece uma reflexão urgente e profunda, pois, o que estão fazendo em nome da música gospel …

            Não tem como ignorar que estamos sob constantes desafios, e isso sempre fez parte da história da igreja militante, as diferenças são as épocas. E em nosso tempo estão ministrando mais paliativos do que resoluções que produzam a cura definitiva. Esses remendos temporários podem até encher uma igreja e dar cara de sucesso, mas quando se busca na raiz, falta profundidade. A falta dessa qualidade espiritual é o que reflete na vida cristã ordinária, pois, enquanto se está no “culto” vai tudo bem, mas após a impetração da benção apostólica, tudo volta a ser como antes.

            Façamos uma análise crítica da história da igreja e abramos em cada capítulo e honestamente deixemos que os fatos nos enquadrem que logo chegaremos a conclusão: os paliativos que se dão em nossos púlpitos contemporâneo, quer seja por pregações, ensinos, louvores; por práticas como teatros, coreografia, festas pagãs adaptadas com cara cristã, etc., são mais paliativos distorcidos do que a solução definitiva para uma espiritualidade bíblica e profunda em Cristo.

            O grande problema desses paliativos é que a visão se torna míope e acostuma-se com um estilo de vida cristã superficial e que as desculpas são mais importantes do que aquilo que as Escrituras ensinam de forma geral. É um perigo quando temos uma mesa farta à disposição e preferimos pão velhos e comidas requentadas. Se queremos um avivamento oriundo do céu, tendo o Espírito Santo como o seu promotor, abramos mãos de paliativos que são estorvos à uma profundidade em Cristo. Isso requer coragem e ousadia, mas não temos outra alternativa, pois, a igreja nunca viveu de paliativos, principalmente esses pós-modernos, mas sempre na simplicidade do evangelho sob o poder do Espírito Santo.

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Jetúlio Luz, é pastor, diretor do Seminário William Seymour. Lic. em História. Mestrando em Teologia. Autor do livro Poder do Alto-Uma introdução ao Pentecostalismo