ENTENDENDO O TEXTO DE JOÃO 10.1-10

Por Gesiel C.S. Pereira

Para entendermos um pouco melhor sobre a perícope de Jo. 10.1-10 e nomearmos quem são os personagens apresentados (ladrão, salteador e mercenário). Alguns dizem que o mercenário são todos os que trabalham para o pastor (inclusive nós obreiros). 

Por isso, fiz algumas anotações que podem parecer extensas, mas foi redigido com muito cuidado, amor, pesquisa e no Temor do Senhor. Espero que sirva para edificação do rebanho de Jesus.

 Para entendermos a perícope de João 10.1-16, é importante observar qual é ou são os contextos que se acercam. E o pano de fundo desse texto precisa ser visto através a profecia de Ezequiel capítulo 34 onde ele denuncia os pastores de Israel. 

As denuncias giram em torno de três aspectos: 

(1) Os pastores que pastoreavam a si mesmos. Nos faz pensar em uma espécie de confraria, agrupamento entre os mesmos. Um grupo seleto que se reunia a “pastorear-se” e gabar-se dos luxos vividos em consequência da exploração das ovelhas. 

(2) Seus interesses estavam somente na gordura das ovelhas. Gordura, no original hebraico הלב (heleb), e significa a parte mais rica do animal, ou o mais gordo do rebanho, (Gn 4:4). Pode também significar o melhor de qualquer produção alimentícia (Gn 45:18; Nm 18:12; Sl 81:16; 147:47). 

(3) Escolhiam quais eram as melhores, se vestiam com a lã, degolavam o cevado, mas não curavam as enfermas nem fortaleciam as fracas. Os interesses estavam apenas em que as ovelhas podiam proporcionar ao grupo, e não em pastoreá-las segundo o coração de Deus. 

Aproxima-se muito de Ezequiel o texto do profeta Jeremias capítulo 23, que se relacionam em seu contexto antes e durante o cativeiro. Contexto esse que é o que faz com que o povo fosse invadido e levado cativo, pela falta de pastoreio e liderança. 

Esses pastores interesseiros que somente tiravam proveito das ovelhas, negligenciam o mandamento do Senhor deixando-as livre com suas feridas abertas, sem faixas pelos montes e outeiros. Não havia disciplina, orientação para as ovelhas da parte dos pastores a ponto de se perderem por onde andavam e não serem buscadas pelos pastores de Israel. Eram os pastores inúteis mencionados na profecia de Zacarias no capítulo 11.17. 

Depois desse rápido fundo histórico, podemos saltar até o evangelho escrito por João. Porém, antes de fixarmos no capítulo 10, precisamos observar que Jesus está no Templo nos dias da Festa dos Tabernáculos (Sucôt ou Cabanas) até o início da festa da Dedicação como afirma Carson:

“Os versículos 19-21 referem-se à cura do homem cego, alguns propõem que esses versículos devem imediatamente seguir o capítulo 9. Se os versículos 22ss. Vêm logo depois, então a festa da Dedicação (v. 22) é introduzida antes de todo o tema do pastor/ovelha do capítulo 10, suavizando (assim se pensa) o presente arranjo, no qual os versículos 1-18 parecem estar ligados com o capítulo 9, localizados no tempo da festa das cabanas (7. lss.), enquanto que os versículos 22ss., ainda tratando com o tema das ovelhas, está ligado à festa da Dedicação, três meses mais tarde”.

Fica claro que a divisão do texto em nossas traduções em relação aos manuscritos gregos, temos um corte da história anterior onde Jesus está em uma discussão com alguns fariseus pela cura de um homem cego. Hendriksen concorda corrobora com essa interpretação:

“Embora o estilo seja diferente, a conexão-pensamento é muito aproximada. Jesus se descreve como sendo o bom pastor em oposição aos falsos pastores. O bom pastor dá sua vida por suas ovelhas; os fariseus, por outro lado, como maus pastores, não estão preocupados com as ovelhas, e as lançam fora. O homem cego de nascença, uma verdadeira ovelha, tinha sido excomungado pelas autoridades judaicas, mas Jesus, o bom pastor, foi procurá-lo e o encontrou. O que importa é essa conexão em pensamento. Uma vez que isso é visto, se torna evidente que 10.1-21 é a continuação lógica e cronológica de 9.35-41 (e, de certo modo, do capítulo 9 em sua totalidade”.

Aprisco (foto acima)

Aprisco é todo espaço normalmente fechado por muros que é destinado a zelar e guardar as ovelhas (Ez 34:14; Jr. 23:3).

Os apriscos normalmente eram permanentes e tinham uma porta principal, como podemos ver em um exemplo no livro de João 10:1 “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador”. 

Alguns desses apriscos tinham em cima de seus muros muitos galhos e espinhos para que nenhum animal pudesse pular por cima dos muros e atacar as ovelhas. 

A porta era pequena e nela poderia ter alguém (o porteiro) cuidando se fosse o caso de um aprisco utilizado por mais um pastor. Então essa pessoa ficava na porta guardando-a e só era autorizada a entrada do pastor (v.2-3). E importante perceber, que ainda nesse caso, Jesus não se denomina como a porta tampouco o pastor. E aos que tentam burlar essa forma de entrada, são chamados de ladrões e salteadores.

• Ladrões – alguém que está determinado a roubar propriedade alheia. • Salteador – é alguém que recorre à violência para a obtenção de bens cobiçados (Ex. Lucas 10.30; Jo 18.40). 

• Mercenário – Eles estão simplesmente trabalhando pelo pagamento. Não fazem por amor, mas sim pela moeda de troca. O coração não é de pastor, não está nas ovelhas, e sim na recompensa. E quando o rebanho é atacado, ele foge, porque as ovelhas não são dele. Esses mercenários nunca se preocuparam com a mulher adúltera, com o cego curado no anterior capítulo, com o paralítico de betesda etc. os mercenários são os que COBRAM PELO SERVIÇO PASTORAL. São os que entram nas casas das viúvas com pretexto de orar, mas o coração está interessado no que elas podem proporcionar. Como diz Carson: “o mercenário está mais comprometido com o próprio bem estar do que com a integridade do rebanho. 

Portanto, qualquer pessoa que quisesse entrar, teria de subir por um outro lugar. Assim também os líderes religiosos, hostis a Jesus, estavam tentando ilegalmente ganhar domínio sobre o povo de Israel (ver v. 16). Eles tentavam ganhar o povo por meio da intimidação (ver v. 9.22).

Porém, o pastor é diferente ele guia as ovelhas. Vai à frente delas dando voz e mostrando a direção correta. Elas por si mesmas, atendem a voz e seguem. É interessante a maneira que Hendriksen explica esse reconhecimento:”Uma ovelha normal não segue um estranho mesmo que ele vista a roupa de pastor e tente imitar o chamado do pastor. Isso já foi tentado muitas vezes”. 

Mesmo que vista a roupa do pastor elas não o reconhecem. Assim deveríamos ser como ovelhas do Bom Pastor, não nos deixar levar por vozes estranhas. Podemos aplicar nesse paragrafo, pessoas que se iludem e deixam levar por vãs filosofias, teologias sem fundamentação na Palavra de Deus e muitos modismos e invencionices teológicas. Isso tem afetado a ovelhas que trocam a voz do pastor que traz segurança, por invencionices e pastos inexplorados. 

Após a explicação da parábola, muitos ainda não entenderam o que Jesus estava ensinando, então ele recomeça a explicação: EU SOU A PORTA DAS OVELHAS. A única maneira, o único caminho, o mediador e não há outro. 

Todos os que vieram antes de mim é uma expressão interessante, pois Jesus não está se referindo aos líderes veterotestamentários, mas sim aos que se fizeram passar por Ele. Como menciona Carson: “a expressão seguramente sugere mais os líderes locais despóticos que se preocupam mais com seu próprio lucro do que com as ovelhas sob seus cuidados . 

Isso soa, antes, como se a referência estivesse sendo feita a pretendentes messiânicos que prometem ao povo liberdade, mas que o levam para a guerra, sofrimento e escravidão. A liberdade que Jesus conquista para seu povo será realizada não pela espada e escudo, mas por uma cruz. Se grandes multidões se associam aos charlatães, as ovelhas reais, porém, não os ouvem.

Com Jesus há liberdade de vida, essa liberdade é tão grande que nos faz livres de todas as amarras e o seguimos por sua voz traz segurança. Não era assim que praticavam os fariseus, tudo era na força e obrigação de seguir o que estava na Lei ipsis litteris. 

Como diz o pastor espanhol Samuel Perez Millos: “os fariseus estavam determinados a alcançar as pessoas em seu sistema, ensinando-lhes que era o caminho para elevar a salvação, com observância do sistema legal e religioso”.

O ladrão vem para matar, roubar e destruir…

Muitos confundem essa passagem como se fosse o diabo, mas não é. Não que ele não cometa essas coisas. Mas Jesus aqui se aplica ao fato ocorrido no capítulo 9 referente aos fariseus. Enquanto os fariseus matam, roubam e destroem, Jesus faz o oposto, ele da VIDA, PAZ E EDIFICA.

Que possamos ouvir a voz do Sumo Pastor. Sua voz é inconfundível e é a única (Palavra) que nos conduz ao Paraíso eterno. “E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória (1Ped 5.4)”.

Deus abençoe em Nome de Jesus, o nosso Maravilhoso Pastor.

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Sobre o autor: Bacharel em  Teologia. Pós em Met. Ens. Religioso; Pedagogía Crista; Teologia do AT. Mestrando Ciência das Religiões.

Bibliografia 

Hendriksen, W. (2004). O Evangelho de João. Cultura Cristã. São Paulo.

Millos, S. P. (2016). Comentario Exégetico al texto grego del Nuevo Testamento Juan. Editorial CLIE. USA.

Carson. D. A. (2007). O Comentário de João. Sheed Publicações. São Paulo.